Havia um amante… O bafo quente que ela soltou em meu pescoço aquecia o espírito neste instante de gélida solidão. Um olhar descuidado para o horizonte terreno revelou doenças rastejantes que meu corpo repudiava. Fui afugentado para longe dali, expelido como a putrefação juvenil de uma acne vampira, explodindo como cuspe de espirro no ar. Movido por uma lembrança, presenciada pela minha massa morta, flutuo na direção do chamado desconhecido vindo das margens deste rio de sangue coagulado. No passado confessado ao sacristão leitor, o cadáver cantarolava divagações sobre a paixão do corpo dela numa procissão divina rumo ao meu êxtase. Aprisionado por laços que asfixiavam este novo canal, sentia a interferência dos 70 quilos de carne sobre essa forma viral assumida por mim. Para o antigo eu, servido de ceia aos vermes sob a terra, o único meio de manter nossa união era persistindo na imagem do prazer vivido pela graça de seus sentidos. Ele não entendia que levava comigo a presença amorosa de um carinho sutil e que mesmo sem suas vias de acesso eu podia sentir. Entretanto, não compreendia que ao determinar a ruptura destes vestígios, o vácuo faminto me engoliria em sua escuridão e apenas a revelação do segredo persistiria. … Só restou a memória.

Havia um amante…

O bafo quente que ela soltou em meu pescoço aquecia o espírito neste instante de gélida solidão. Um olhar descuidado para o horizonte terreno revelou doenças rastejantes que meu corpo repudiava. Fui afugentado para longe dali, expelido como a putrefação juvenil de uma acne vampira, explodindo como cuspe de espirro no ar. Movido por uma lembrança, presenciada pela minha massa morta, flutuo na direção do chamado desconhecido vindo das margens deste rio de sangue coagulado. No passado confessado ao sacristão leitor, o cadáver cantarolava divagações sobre a paixão do corpo dela numa procissão divina rumo ao meu êxtase. Aprisionado por laços que asfixiavam este novo canal, sentia a interferência dos 70 quilos de carne sobre essa forma viral assumida por mim. Para o antigo eu, servido de ceia aos vermes sob a terra, o único meio de manter nossa união era persistindo na imagem do prazer vivido pela graça de seus sentidos. Ele não entendia que levava comigo a presença amorosa de um carinho sutil e que mesmo sem suas vias de acesso eu podia sentir. Entretanto, não compreendia que ao determinar a ruptura destes vestígios, o vácuo faminto me engoliria em sua escuridão e apenas a revelação do segredo persistiria.

… Só restou a memória.

Manuela Manuela estava brincando no quarto com sua boneca sentada no chão em frente a TV ligada, em algum canal infantil, no qual um roedor esperto convencia um cachorro burro a lhe dar todas as suas economias. Ela não prestava atenção nesse enredo, hipnotizada com os fios loiros e muito lisos dos cabelos de sua boneca, sua atenção não percebia nada, nem mesmo quando seu pai entrou no quarto ofegante. Ele estava suado e com uma cara de puro pavor, quando a viu, uma expressão de alívio brotou em sua face e sumiu quase que imediatamente ao perceber o estado da filha. O vestido florido da menina comprado no último final de semana pela mãe, agora encontrava-se embebido de sangue, o rubro de seu frescor contrastava com o anil sutil da vestimenta. Assim como na deixa do teatro, a chegada do outro personagem tira o marasmo do ato. Ela vagarosamente larga a boneca e se ergue. Permanecendo de costas a porta, com a atenção agora voltada para o aparelho de televisão, o pobre cachorro neste instante chorava por perceber sua estupidez, assim como o homem que olhava incrédulo para o objeto pontiagudo que sua filha carregava. Este permanecera escondido da visão do pai pela boneca que jazia torta no chão, suja pelo mesmo fluido que a faca proporcionou aos lírios áureos no tecido que vestia a menina.  - Eu tive que fazer, ela pediu. A voz de Manuela parecia vir de outro cômodo da casa, muito baixa e sem emoção. As lagrimas desciam com força pelo rosto do homem e foi com muito esforço que ele perguntou a respeito deste alguém que pediu. A menina continuou olhando para a tela como se não houvesse escutado, o rato recebia uma surra do cachorro e de seu amigo pato, que tomava a frente dessa ação, três minutos depois o desenho acabou e então ela virou a cabeça para sua direita. Havia um grande guarda roupa com um espelho na porta deste lado do aposento e o homem demorou um pouco para notar o que encontrava-se ali para justificar tal resposta. O grito de horror que ele soltou pode ser escutado pelas ruas trevosas daquela noite sem luar, gelando a vértebra dos que perambulavam por suas redondezas e perturbando o sono de muitos dos seus vizinhos. Mais tarde naquela madrugada encontraram o corpo de sua esposa esfaqueado na poltrona da sala e alguns destes, imediatamente, o apontaram como protagonista de tal barbárie. O consenso de todos a respeito da decadência doentia para a qual seu casamento caminhava, guiava o pensamento que sucedeu o choque causado pela cena. Quando subiram as escadas e contemplaram seu corpo igualmente esfaqueado e sem vida no quarto da filha, o remorso os calou. A inexplicável ausência da menina perdurou como presságio de morte na memória dos moradores da região. P. S.: Seu olhar percorria todas as pontas do móvel, o assoalho e o teto, desceu pelas fechaduras e as linhas que circundavam as portas e finalmente posou no espelho. Em vista de onde se encontrava a menina aquela cena era impossível, o reflexo deveria abarcar o televisor e talvez os pés dela, pois não havia nada mais entre ambos, contudo não era isso que refletia. Ali de pé voltada em sua direção num cenário estranhamente diferente deste a sua frente, um ser de fisionomia diabólica e sorriso malicioso ao lado da boneca caída, o encarava. Quando finalmente concebeu que a criatura através do espelho era Manuela, ele gritou. 

Manuela

Manuela estava brincando no quarto com sua boneca sentada no chão em frente a TV ligada, em algum canal infantil, no qual um roedor esperto convencia um cachorro burro a lhe dar todas as suas economias. Ela não prestava atenção nesse enredo, hipnotizada com os fios loiros e muito lisos dos cabelos de sua boneca, sua atenção não percebia nada, nem mesmo quando seu pai entrou no quarto ofegante. Ele estava suado e com uma cara de puro pavor, quando a viu, uma expressão de alívio brotou em sua face e sumiu quase que imediatamente ao perceber o estado da filha. O vestido florido da menina comprado no último final de semana pela mãe, agora encontrava-se embebido de sangue, o rubro de seu frescor contrastava com o anil sutil da vestimenta.

Assim como na deixa do teatro, a chegada do outro personagem tira o marasmo do ato. Ela vagarosamente larga a boneca e se ergue. Permanecendo de costas a porta, com a atenção agora voltada para o aparelho de televisão, o pobre cachorro neste instante chorava por perceber sua estupidez, assim como o homem que olhava incrédulo para o objeto pontiagudo que sua filha carregava. Este permanecera escondido da visão do pai pela boneca que jazia torta no chão, suja pelo mesmo fluido que a faca proporcionou aos lírios áureos no tecido que vestia a menina. 

- Eu tive que fazer, ela pediu. A voz de Manuela parecia vir de outro cômodo da casa, muito baixa e sem emoção.

As lagrimas desciam com força pelo rosto do homem e foi com muito esforço que ele perguntou a respeito deste alguém que pediu.

A menina continuou olhando para a tela como se não houvesse escutado, o rato recebia uma surra do cachorro e de seu amigo pato, que tomava a frente dessa ação, três minutos depois o desenho acabou e então ela virou a cabeça para sua direita. Havia um grande guarda roupa com um espelho na porta deste lado do aposento e o homem demorou um pouco para notar o que encontrava-se ali para justificar tal resposta.

O grito de horror que ele soltou pode ser escutado pelas ruas trevosas daquela noite sem luar, gelando a vértebra dos que perambulavam por suas redondezas e perturbando o sono de muitos dos seus vizinhos. Mais tarde naquela madrugada encontraram o corpo de sua esposa esfaqueado na poltrona da sala e alguns destes, imediatamente, o apontaram como protagonista de tal barbárie. O consenso de todos a respeito da decadência doentia para a qual seu casamento caminhava, guiava o pensamento que sucedeu o choque causado pela cena. Quando subiram as escadas e contemplaram seu corpo igualmente esfaqueado e sem vida no quarto da filha, o remorso os calou.

A inexplicável ausência da menina perdurou como presságio de morte na memória dos moradores da região.

P. S.: Seu olhar percorria todas as pontas do móvel, o assoalho e o teto, desceu pelas fechaduras e as linhas que circundavam as portas e finalmente posou no espelho. Em vista de onde se encontrava a menina aquela cena era impossível, o reflexo deveria abarcar o televisor e talvez os pés dela, pois não havia nada mais entre ambos, contudo não era isso que refletia. Ali de pé voltada em sua direção num cenário estranhamente diferente deste a sua frente, um ser de fisionomia diabólica e sorriso malicioso ao lado da boneca caída, o encarava. Quando finalmente concebeu que a criatura através do espelho era Manuela, ele gritou. 

“This post died while you were away. Copy your work and refresh the page.”
Ultimamente a questão que insiste em dar voltas em minha mente é o caráter de deus. Em uma conversa afortunada que tive com um amigo há pouco tempo, ele divagou a respeito de suas crenças, não vou me deter nelas, mas no desenrolar do papo para auxiliar a afirmar o que ele estava dizendo, comentei que não pensava em deus como um tipo de adestrador que escolhe o que o bicho come e o lugar onde dorme. Disse isso pra demonstrar meu entendimento sobre as ideias dele, contudo não sei bem no que acredito. Sobre essa metáfora queria me referir que deus não poderia ser alguém que possuísse opiniões sobre o certo e o errado, ou melhor, não poderia possuir opiniões. Isso o tornaria mesquinho, egoísta, arrogante, talvez, mas principalmente limitado. Eu tenho minhas concepções, todo mundo tem, se deus também tiver a existência será totalmente meritocrática. Aqueles que possuírem uma linha de pensamento igual à de deus seriam melhores, pois as verdades estariam todas sob a palavra final do “todo poderoso”, independente de que para você suas crenças fazem muito mais sentido do que a dele. É estranho pensar sobre isso, minha criação em uma casa pseudocatólica me faz sentir um aperto quando escrevo ou penso em algo, que de certa forma, soe como uma heresia ao ser intocável. Tudo isso pra dizer que no fundo a ideia de um deus mais humano me instiga, a fragilidade de um ser assim é atraente. Imaginando que deus estivesse deprimido, com quem ele poderia se abrir sem revelar sua existência (pois isso estragaria o barato da vida de um monte de gente)? Essa conversa me deu uma ideia e essa serve para introduzir esse conto. O mendigo I Passo o dia admirando o movimento das ruas, o passo apertado de gente compromissada, os automóveis insensíveis, alguns animais perdidos por aí procurando algo para comer. Me identifico com todos eles, tenho pressa, sou insensível e preciso procurar constantemente algo para comer. A vida nas ruas é cheia de rituais, assim como nas casas e é importante assimilar alguns deles, mas aqui fora, posso subverter muitas coisas que sob um teto não poderia. Essa liberdade é bacana, eu gosto. As pessoas devem pensar que sou louco porque costumo falar em voz alta enquanto ando, meu companheiro de conversa não é visível a elas, então até acho justificável tal pensamento canalha. Entretanto eu também não o vejo Nem sempre ouvi essa voz, assim como nem sempre morei na rua. Um dos motivos de largar tudo, foi o pensamento que reinava a minha volta. Não acreditava, não gostava, não entendia a necessidade que todos sentiam de algemarem suas vidas a um monte de regras e se libertarem de vícios. Eu tenho vários deles, fumo muito, bebo em excesso e em relação ao sexo, sabe, o contexto molda o desejo e as ruas me permitiram muitas coisas, várias experiências novas. O que estou querendo dizer, é que sou um completo amoral, pecador e antiético, não que eu saia por aí afirmando isso, apenas sei que me enquadro nesses termos e a sociedade pode apontar os motivos. A ironia aparente seria a de que deus viesse procurar um “pecador” para conversar, na realidade a escolha foi por puro comodismo, quem botaria fé em um morador de rua qualquer que dissesse que o criador desabafa com ele, todos os dias. Sim, esse é meu martírio. Antes disso, as vezes me encontrava absolto e procurava o ombro de um ser maior, como forma de consolo. Esse alguém era eu mesmo, olhava para o além, questionava o infinito e no fim das contas apenas esperava que minha reflexão surtisse o efeito desejado. A vida de morador de rua é absurdamente solitária, ser amigo de você mesmo é importante para a sobrevivência. A voz tirou isso de mim, a presença dela impedia que eu conversasse com a tal imensidão desconhecida, agora eu falava com algo certo demais para o meu gosto. A voz tomava uma forma em minha cabeça e como eu preferiria o silêncio. Vivo num mundo diferente das outras pessoas, todos os mendigos vivem. Estamos em um lugar à parte da sociedade, aqui não importa muitas coisas que no meu antigo mundo importava. E é pensando nesse antes que eu mantenho minha boca fechada, não revelo nada. Se aquele mundo descobrir que a fronteira final não passa de um ser depressivo, amargurado e covarde, eles ficariam desolados. Eu não fiquei, por isso penso assim. Ao longo de suas falas extremamente longas e cheias de lamurias só me vinha uma certeza, esse deus e cabível para meu novo mundo, mas pelo que falava ele era o deus do outro. Sua covardia o impedia de acabar com o câncer que consumia sua existência, tornando o amargurando por ser tão resignado e consequentemente depressivo. Ele me disse que não podia eliminar a humanidade, por temer o que viria em seguida. Falou que fez isso antes e que se arrepende profundamente disso. Depois de muitas conversas, nas quais eu só ouvia e de vez em quando perguntava algo, dei um conselho a ele. Imaginei como seria ser uma divindade, um ser superior. Acostumado a ser tratado como lixo pelo mundo, tal percepção não era muito difícil de imaginar, bastava tornar-me meu oposto. E nisso percebi que o caminho de fuga para esses dois polos poderia muito bem ser o mesmo. Deus precisa de um vício, concluí. Essa conversa teve o início de seu fim quando sugeri tal solução. O monólogo infindável em minha mente emudeceu e durante um dia eu tive repouso. Então na manhã seguinte, meus pensamentos estavam concentrados em fantasiar aquele tempo perturbador como um sintoma de minha vida pouco ortodoxa. Quando a leve certeza de que tudo não passou de uma esquizofrenia de minha mente alucinada começou a crescer, ele falou. Tão previsível. - Dos muitos augúrios dos homens, fico lisonjeado com a derrota. Quando alguns de meus filhos disseram que os seres humanos são a imagem e semelhança de minha figura deveriam concluir também que partilho das mesmas mazelas e não que sou a exceção delas. Eu tenho um vício e percebo que es um bom ouvinte por ter chegado a essa conclusão. Gosto de admirar o sofrimento, em todas as suas formas, da carnificina a solidão. Esse terrível prazer alimenta meu vazio. Não passo de um sádico… [Silêncio] Aquilo era sujo até para mim. Eu sabia o que precisava fazer e que isso me transformaria em mais um dos atores desse espetáculo do sofrer. Preferia essa escolha, mesmo que ela usurpa-se o que restava de felicidade em meus dias. A vida que eu conheço é essa que tenho desde que abandonei tudo, agora eu preciso voltar aos braços da semi existência. A consciência que agora possuía me fez crer que era melhor viver no mundo dos mortos longe desse deus da carnificina ou melhor, longe de sua voz. De volta a cacofonia urbana da mesmice cotidiana, das normas e dos normais, olho para os moradores de rua com um sentimento de carinho por algo que não posso mais ter. Tudo é bem mais fácil de esquecer agora que as pequenas atribuições preenchem meu tempo. Deixei de ser um indigente para tornar-me um anônimo para mim mesmo. Não reconheço esse personagem que agora interpreto. Aqui nenhuma entidade entra em contato comigo, enquanto eu fizer meu trabalho terei paz. II Na tarde seguinte, uma menina vestindo um uniforme escolar voltava para a casa. Por acaso decidiu pegar um caminho diferente, indo por uma viela pouco movimentada nas redondezas de seu bairro. Quando adentrou tal rua, seu pensamento a princípio era de fascínio pela cena que ali se postava. Havia uma grande árvore de folhas verdes e flores vermelhas fazendo um show particular para ela, pensou. Por isso se aproximou. Adorava plantas e pensava conhecer aquela espécie, era uma flor-do-paraíso. Foi quando notou a presença de alguém sob a sombra dela. Um homem adulto de aparência muito maltrapilha repetia um estranho ritual a sua frente, ela notou rapidamente que era um morador de rua e ficou boquiaberta pelos detalhes que agora percebia. Ele havia feito uma gravata com uma espécie de cachecol azul ou cinza, também tinha desenhado um relógio no braço e aparentemente tinha cortado o cabelo. Digitava incessantemente em uma máquina de escrever, usando jornais velhos como folhas. A menina ficou ali por uns dez minutos hipnotizada. Ele parou o que estava fazendo e a fitou. Focado em sua rotina incessante e entediante, agora como um deles, já sentia a apreensão daquela formula, nada novo, tudo sempre igual. Precisava terminar seu serviço, antes que desse sete horas, olhou para seu relógio de pulso e notou que faltava cinco para as sete, precisava correr. Contudo sentiu a presença de alguém, pensou temeroso, que poderia ser a voz retornando. E ali em pé contra a luz uma sombra pequena se postava tendo a sua volta pequenas pétalas vermelhas flutuantes que caiam como chamas a seus pés, era claramente a visão celestial do além retornando em forma de anjo para redimir o tormento que havia causado. - Salve-me anjo, salve-me de minha desgraça. A menina não entendeu o que o homem disse, não tinha medo, apenas curiosidade. - O que você tá fazendo, moço? Aquela pergunta o paralisou. A luz saiu de trás da sombra e ele pode ver claramente quem falou, uma pequena menininha. Olhou em volta, viu a árvore, a máquina e as diversas folhas de jornais espalhadas na grama.Olhou novamente para a menina, perdido. - Você sabe que lugar é esse, menina? Ela achou a pergunta engraçada e olhando para a expressão do homem imediatamente escondeu seu sorriso, respondeu. - É uma viela, moço. No fim das contas, o tempo inteiro havia permanecido na rua, foi tudo invenção de sua insanidade. Assim como essa constatação havia aflorado dentro dele, quase imediatamente ele escutou dentro de sua cabeça. - … que se engrandece com as calamidades alheias. Foram as palavras de deus, como se nunca tivesse parado de falar. O homem deu as costas para ela, tirou a gravata e amarrou essa a um pedaço de pano que protegia a parte inferior da máquina de escrever. Olhou para a árvore, escolheu um galho e começou a trepar nela para chegar até ele. Feito isso começou a amarrar a corda improvisada no ramo escolhido, depois com a outra extremidade fez o mesmo em volta de seu pescoço.

Ultimamente a questão que insiste em dar voltas em minha mente é o caráter de deus. Em uma conversa afortunada que tive com um amigo há pouco tempo, ele divagou a respeito de suas crenças, não vou me deter nelas, mas no desenrolar do papo para auxiliar a afirmar o que ele estava dizendo, comentei que não pensava em deus como um tipo de adestrador que escolhe o que o bicho come e o lugar onde dorme. Disse isso pra demonstrar meu entendimento sobre as ideias dele, contudo não sei bem no que acredito. Sobre essa metáfora queria me referir que deus não poderia ser alguém que possuísse opiniões sobre o certo e o errado, ou melhor, não poderia possuir opiniões. Isso o tornaria mesquinho, egoísta, arrogante, talvez, mas principalmente limitado. Eu tenho minhas concepções, todo mundo tem, se deus também tiver a existência será totalmente meritocrática. Aqueles que possuírem uma linha de pensamento igual à de deus seriam melhores, pois as verdades estariam todas sob a palavra final do “todo poderoso”, independente de que para você suas crenças fazem muito mais sentido do que a dele. É estranho pensar sobre isso, minha criação em uma casa pseudocatólica me faz sentir um aperto quando escrevo ou penso em algo, que de certa forma, soe como uma heresia ao ser intocável.

Tudo isso pra dizer que no fundo a ideia de um deus mais humano me instiga, a fragilidade de um ser assim é atraente. Imaginando que deus estivesse deprimido, com quem ele poderia se abrir sem revelar sua existência (pois isso estragaria o barato da vida de um monte de gente)? Essa conversa me deu uma ideia e essa serve para introduzir esse conto.

O mendigo

I

Passo o dia admirando o movimento das ruas, o passo apertado de gente compromissada, os automóveis insensíveis, alguns animais perdidos por aí procurando algo para comer. Me identifico com todos eles, tenho pressa, sou insensível e preciso procurar constantemente algo para comer. A vida nas ruas é cheia de rituais, assim como nas casas e é importante assimilar alguns deles, mas aqui fora, posso subverter muitas coisas que sob um teto não poderia. Essa liberdade é bacana, eu gosto. As pessoas devem pensar que sou louco porque costumo falar em voz alta enquanto ando, meu companheiro de conversa não é visível a elas, então até acho justificável tal pensamento canalha. Entretanto eu também não o vejo

Nem sempre ouvi essa voz, assim como nem sempre morei na rua.

Um dos motivos de largar tudo, foi o pensamento que reinava a minha volta. Não acreditava, não gostava, não entendia a necessidade que todos sentiam de algemarem suas vidas a um monte de regras e se libertarem de vícios. Eu tenho vários deles, fumo muito, bebo em excesso e em relação ao sexo, sabe, o contexto molda o desejo e as ruas me permitiram muitas coisas, várias experiências novas. O que estou querendo dizer, é que sou um completo amoral, pecador e antiético, não que eu saia por aí afirmando isso, apenas sei que me enquadro nesses termos e a sociedade pode apontar os motivos.

A ironia aparente seria a de que deus viesse procurar um “pecador” para conversar, na realidade a escolha foi por puro comodismo, quem botaria fé em um morador de rua qualquer que dissesse que o criador desabafa com ele, todos os dias.

Sim, esse é meu martírio. Antes disso, as vezes me encontrava absolto e procurava o ombro de um ser maior, como forma de consolo. Esse alguém era eu mesmo, olhava para o além, questionava o infinito e no fim das contas apenas esperava que minha reflexão surtisse o efeito desejado. A vida de morador de rua é absurdamente solitária, ser amigo de você mesmo é importante para a sobrevivência. A voz tirou isso de mim, a presença dela impedia que eu conversasse com a tal imensidão desconhecida, agora eu falava com algo certo demais para o meu gosto.

A voz tomava uma forma em minha cabeça e como eu preferiria o silêncio.

Vivo num mundo diferente das outras pessoas, todos os mendigos vivem. Estamos em um lugar à parte da sociedade, aqui não importa muitas coisas que no meu antigo mundo importava. E é pensando nesse antes que eu mantenho minha boca fechada, não revelo nada. Se aquele mundo descobrir que a fronteira final não passa de um ser depressivo, amargurado e covarde, eles ficariam desolados. Eu não fiquei, por isso penso assim. Ao longo de suas falas extremamente longas e cheias de lamurias só me vinha uma certeza, esse deus e cabível para meu novo mundo, mas pelo que falava ele era o deus do outro.

Sua covardia o impedia de acabar com o câncer que consumia sua existência, tornando o amargurando por ser tão resignado e consequentemente depressivo. Ele me disse que não podia eliminar a humanidade, por temer o que viria em seguida. Falou que fez isso antes e que se arrepende profundamente disso.

Depois de muitas conversas, nas quais eu só ouvia e de vez em quando perguntava algo, dei um conselho a ele. Imaginei como seria ser uma divindade, um ser superior. Acostumado a ser tratado como lixo pelo mundo, tal percepção não era muito difícil de imaginar, bastava tornar-me meu oposto. E nisso percebi que o caminho de fuga para esses dois polos poderia muito bem ser o mesmo. Deus precisa de um vício, concluí.

Essa conversa teve o início de seu fim quando sugeri tal solução. O monólogo infindável em minha mente emudeceu e durante um dia eu tive repouso. Então na manhã seguinte, meus pensamentos estavam concentrados em fantasiar aquele tempo perturbador como um sintoma de minha vida pouco ortodoxa. Quando a leve certeza de que tudo não passou de uma esquizofrenia de minha mente alucinada começou a crescer, ele falou. Tão previsível.

- Dos muitos augúrios dos homens, fico lisonjeado com a derrota. Quando alguns de meus filhos disseram que os seres humanos são a imagem e semelhança de minha figura deveriam concluir também que partilho das mesmas mazelas e não que sou a exceção delas. Eu tenho um vício e percebo que es um bom ouvinte por ter chegado a essa conclusão. Gosto de admirar o sofrimento, em todas as suas formas, da carnificina a solidão. Esse terrível prazer alimenta meu vazio. Não passo de um sádico…

[Silêncio]

Aquilo era sujo até para mim.

Eu sabia o que precisava fazer e que isso me transformaria em mais um dos atores desse espetáculo do sofrer. Preferia essa escolha, mesmo que ela usurpa-se o que restava de felicidade em meus dias. A vida que eu conheço é essa que tenho desde que abandonei tudo, agora eu preciso voltar aos braços da semi existência.

A consciência que agora possuía me fez crer que era melhor viver no mundo dos mortos longe desse deus da carnificina ou melhor, longe de sua voz.

De volta a cacofonia urbana da mesmice cotidiana, das normas e dos normais, olho para os moradores de rua com um sentimento de carinho por algo que não posso mais ter. Tudo é bem mais fácil de esquecer agora que as pequenas atribuições preenchem meu tempo. Deixei de ser um indigente para tornar-me um anônimo para mim mesmo. Não reconheço esse personagem que agora interpreto. Aqui nenhuma entidade entra em contato comigo, enquanto eu fizer meu trabalho terei paz.

II

Na tarde seguinte, uma menina vestindo um uniforme escolar voltava para a casa. Por acaso decidiu pegar um caminho diferente, indo por uma viela pouco movimentada nas redondezas de seu bairro. Quando adentrou tal rua, seu pensamento a princípio era de fascínio pela cena que ali se postava. Havia uma grande árvore de folhas verdes e flores vermelhas fazendo um show particular para ela, pensou.

Por isso se aproximou. Adorava plantas e pensava conhecer aquela espécie, era uma flor-do-paraíso. Foi quando notou a presença de alguém sob a sombra dela.

Um homem adulto de aparência muito maltrapilha repetia um estranho ritual a sua frente, ela notou rapidamente que era um morador de rua e ficou boquiaberta pelos detalhes que agora percebia. Ele havia feito uma gravata com uma espécie de cachecol azul ou cinza, também tinha desenhado um relógio no braço e aparentemente tinha cortado o cabelo. Digitava incessantemente em uma máquina de escrever, usando jornais velhos como folhas. A menina ficou ali por uns dez minutos hipnotizada.

Ele parou o que estava fazendo e a fitou.

Focado em sua rotina incessante e entediante, agora como um deles, já sentia a apreensão daquela formula, nada novo, tudo sempre igual. Precisava terminar seu serviço, antes que desse sete horas, olhou para seu relógio de pulso e notou que faltava cinco para as sete, precisava correr. Contudo sentiu a presença de alguém, pensou temeroso, que poderia ser a voz retornando. E ali em pé contra a luz uma sombra pequena se postava tendo a sua volta pequenas pétalas vermelhas flutuantes que caiam como chamas a seus pés, era claramente a visão celestial do além retornando em forma de anjo para redimir o tormento que havia causado.

- Salve-me anjo, salve-me de minha desgraça.

A menina não entendeu o que o homem disse, não tinha medo, apenas curiosidade.

- O que você tá fazendo, moço?

Aquela pergunta o paralisou. A luz saiu de trás da sombra e ele pode ver claramente quem falou, uma pequena menininha. Olhou em volta, viu a árvore, a máquina e as diversas folhas de jornais espalhadas na grama.Olhou novamente para a menina, perdido.

- Você sabe que lugar é esse, menina?

Ela achou a pergunta engraçada e olhando para a expressão do homem imediatamente escondeu seu sorriso, respondeu.

- É uma viela, moço.

No fim das contas, o tempo inteiro havia permanecido na rua, foi tudo invenção de sua insanidade. Assim como essa constatação havia aflorado dentro dele, quase imediatamente ele escutou dentro de sua cabeça.

- … que se engrandece com as calamidades alheias. Foram as palavras de deus, como se nunca tivesse parado de falar.

O homem deu as costas para ela, tirou a gravata e amarrou essa a um pedaço de pano que protegia a parte inferior da máquina de escrever. Olhou para a árvore, escolheu um galho e começou a trepar nela para chegar até ele. Feito isso começou a amarrar a corda improvisada no ramo escolhido, depois com a outra extremidade fez o mesmo em volta de seu pescoço.

Tenho pena dele, não sei o que fazer para ajudá-lo. Olho para sua expressão e sinto a dor que minha aparição lhe causa. Ele sempre fica inquieto, embora nunca desvie o olhar. Em nenhum momento aqueles penetrantes olhos cinzentos deixam de me fitar. Chega a ser perturbador. Noto seu descontentamento no ato em que percebo o meu. A semelhança de nossos sentimentos aumenta minha vontade de acudi-lo, mas não sei como chegar até ele, há uma parede entre nós. Já pensei em quebrá-la, contudo temo que ao fazer acabe por machucar o pobre coitad… - Saia da frente do espelho, filho!   - Tá, mãe. Respondeu a pequena criança, contrariada. - Você é muito novo para ser tão vaidoso. Resmungou a mulher. O menino saiu do quarto com a sensação de que aquilo não tinha nada a ver com esse tal de “vaidoso”, assim que sua mãe se distraísse voltaria para pensar em alguma forma de socorrer seu amigo.  

Tenho pena dele, não sei o que fazer para ajudá-lo. Olho para sua expressão e sinto a dor que minha aparição lhe causa. Ele sempre fica inquieto, embora nunca desvie o olhar. Em nenhum momento aqueles penetrantes olhos cinzentos deixam de me fitar. Chega a ser perturbador. Noto seu descontentamento no ato em que percebo o meu. A semelhança de nossos sentimentos aumenta minha vontade de acudi-lo, mas não sei como chegar até ele, há uma parede entre nós. Já pensei em quebrá-la, contudo temo que ao fazer acabe por machucar o pobre coitad…

- Saia da frente do espelho, filho!  

- Tá, mãe. Respondeu a pequena criança, contrariada.

- Você é muito novo para ser tão vaidoso. Resmungou a mulher.

O menino saiu do quarto com a sensação de que aquilo não tinha nada a ver com esse tal de “vaidoso”, assim que sua mãe se distraísse voltaria para pensar em alguma forma de socorrer seu amigo.  

“Eu era jovem e tolo… Achava que aquelas manhãs de primavera durariam para sempre.”