Concelho III - Final A condição imperfeita que gesta o mundo conduziu meus anseios, por isso não permaneço mais em um canto nem mesmo naquele prédio, me encontro em repouso. Envolto de paredes e escombros, poeira e sujeira, medo e fúria. As inscrições gravadas sobre as folhas são um interlúdio do real. Esse momento em que descrevo a circunstância não passa de um grito sufocado de culpa. A ordem processual de uma regra levou minhas ações ao esperado e agora a distância clareia o breu que formei em minha volta. Sou pior que todos ele. A ausência que pratico hoje ao conselho de classe é a ausência que pratiquei ao longo de toda minha estadia naqueles territórios. Neste momento percebo que anteporia fazer parte do coro de almas. 

Concelho III - Final

A condição imperfeita que gesta o mundo conduziu meus anseios, por isso não permaneço mais em um canto nem mesmo naquele prédio, me encontro em repouso. Envolto de paredes e escombros, poeira e sujeira, medo e fúria. As inscrições gravadas sobre as folhas são um interlúdio do real. Esse momento em que descrevo a circunstância não passa de um grito sufocado de culpa. A ordem processual de uma regra levou minhas ações ao esperado e agora a distância clareia o breu que formei em minha volta. Sou pior que todos ele. A ausência que pratico hoje ao conselho de classe é a ausência que pratiquei ao longo de toda minha estadia naqueles territórios.

Neste momento percebo que anteporia fazer parte do coro de almas. 

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Concelho II Enfim permaneço no canto. Agora minha posição reflete minha autoridade. Meus gracejos compõem esse monótono coral. Dito e o coordeno, não com gestos pois não sou um maestro, um algoz talvez. Mantenho suas almas em continua ameaça, pois só assim, ante meu velar, os faço cantar.

Concelho II

Enfim permaneço no canto. Agora minha posição reflete minha autoridade. Meus gracejos compõem esse monótono coral. Dito e o coordeno, não com gestos pois não sou um maestro, um algoz talvez. Mantenho suas almas em continua ameaça, pois só assim, ante meu velar, os faço cantar.

Concelho Um frio pleno paira por sobre o prédio, vozes femininas esbravejam vorazes e a luz álgida da manhã perpétua meu martírio. No canto da sala, engenhosamente escolhido, observo discretamente. A vida dos nomes estão sendo julgadas, não há muito esforço, parece ser fácil. O concílio tratado em sala me vêem a cabeça, os religiosos guiando seus fiéis, os educadores direcionando seus alunos. A ausência dos réus torna austero o dia. E a escola permanece morta nestas horas inquietantes sem as almas que nela habitam.

Concelho

Um frio pleno paira por sobre o prédio, vozes femininas esbravejam vorazes e a luz álgida da manhã perpétua meu martírio. No canto da sala, engenhosamente escolhido, observo discretamente. A vida dos nomes estão sendo julgadas, não há muito esforço, parece ser fácil. O concílio tratado em sala me vêem a cabeça, os religiosos guiando seus fiéis, os educadores direcionando seus alunos. A ausência dos réus torna austero o dia. E a escola permanece morta nestas horas inquietantes sem as almas que nela habitam.

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Yorch Miranda ( http://instagram.com/yorch_miranda)
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O olhar que me instiga quando em estado de enfermidade admiro algo, é profundo, contudo desfocado. Olho para o vazio em procura de significado e neste encontro apenas pensamentos perdidos e devaneios. Há uma espécie de lamento nessa doença, mas não é algo certo. Não é uma dor que assume a forma de alguém ou de algum acontecimento que me fez mal. É um lamento egoísta. A face do culto da personalidade está voltada para mim e meu ego se envaidece com isso. Essa aura que emana de um momento onde o corpo enfraquecido clama por vida, reflete a sombra da morte que se apodera de meu ímpeto reflexivo-obsessivo. Neste instante eu observo… Só observo e não vivo. Como explicar essa vontade de admirar a minha existência. Trazer sentido a algo tão mesquinho para alguns e tão necessário para outros. Sentido. A febre torna todas as partes de meu corpo mais sensíveis, assim como quando ao ser picados por uma agulha sinto aquele lugar com maior intensidade. Centenas de agulhas de sentido. Os nervos transpiram em uníssono. Diante desta explosão, efêmera apenas a mim, as cores de todo o resto se esvanecem. Assim como a realidade contida neste resto. Pensamentos realocam minha realidade a um paralelo do real. Sonhos passam a habitar além de seus limites. Minha vida como um sono infinitamente leve que pode ser dissipado por nada. Tudo por tanto. Passo a aproveitar cada segundo nesta realidade imaginada, filha de meus devaneios febris. As vezes o mundo é mais bonito em preto e branco.

O olhar que me instiga quando em estado de enfermidade admiro algo, é profundo, contudo desfocado. Olho para o vazio em procura de significado e neste encontro apenas pensamentos perdidos e devaneios. Há uma espécie de lamento nessa doença, mas não é algo certo. Não é uma dor que assume a forma de alguém ou de algum acontecimento que me fez mal. É um lamento egoísta. A face do culto da personalidade está voltada para mim e meu ego se envaidece com isso. Essa aura que emana de um momento onde o corpo enfraquecido clama por vida, reflete a sombra da morte que se apodera de meu ímpeto reflexivo-obsessivo. Neste instante eu observo… Só observo e não vivo. Como explicar essa vontade de admirar a minha existência. Trazer sentido a algo tão mesquinho para alguns e tão necessário para outros. Sentido. A febre torna todas as partes de meu corpo mais sensíveis, assim como quando ao ser picados por uma agulha sinto aquele lugar com maior intensidade. Centenas de agulhas de sentido. Os nervos transpiram em uníssono. Diante desta explosão, efêmera apenas a mim, as cores de todo o resto se esvanecem. Assim como a realidade contida neste resto. Pensamentos realocam minha realidade a um paralelo do real. Sonhos passam a habitar além de seus limites. Minha vida como um sono infinitamente leve que pode ser dissipado por nada. Tudo por tanto. Passo a aproveitar cada segundo nesta realidade imaginada, filha de meus devaneios febris. As vezes o mundo é mais bonito em preto e branco.

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tuff-off:

Antoine Maillard, 2014
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A Narrativa da Caneta Falhada Inconstante fome insaciável,     Que engole o eu indignado, Transforma meu cerne inefável,                                                                 Na rima de um tolo internado. Ao buscar liberdade nas paredes,                                                            Encontro o retrato falado,   Meus desejos não acompanham meus deveres, Sou um rosto inanimado, O lamento de um condenado. Queria eu ser versado nas artes da música, Para com ela esbravejar,   Inculto maldizente e de gosto indigente,     Sei que não devo falar. Sem melodia, sem canção…   Não há porque expressar, Estes demônios aprisionados em minha humilde imensidão,   Hão de continuar a vagar alojados no fosso de meu coração. Mas sempre haverá rebeldia,   E dos fundos de minha agonia, Um diabo alpinista me escala e anuncia,   Que isso deve acabar. Outro dia outra bossa, Viro a página da derrota,  O inquilino inteligente, ó ser intransigente!   Rasga meu peito, tortura meu lamento, E me expulsa da solidão.  Este olhar enclausurado de uma boca sem língua, É o olhar de tantos outros que procuram algo que míngua. E ao me juntar a este grande grupo, Percebo mais uma vez o porquê de meu reluto,     Em fazer parte dessa religião. A esperança nefasta,   Crença da desgraça,   Fé de cachaça de um ébrio alterado, Um utopista, um pobre coitado, Afastado da razão. O sonho que saiu de dentro,   Não é maior que meu medo,   De encontrar-me novamente de joelhos,   No templo do descontentamento, Orando ao desencanto,   Carregando o semblante da desilusão. Por isso retorno a caverna… E no silêncio de suas pedras, Volto a ser apenas uma boca calada,   Uma vida sem graça,   Pertinente somente a cacofonia do nada. E assim acaba,   A história não contada,   A narrativa da caneta falhada, Não podendo nem tornar-se uma crônica,   Muito menos uma morte anunciada.   - Não deveria haver fim onde não houve início.   Era o que deveria estar escrito,   No epitáfio deste indivíduo. 

A Narrativa da Caneta Falhada

Inconstante fome insaciável,    

Que engole o eu indignado,

Transforma meu cerne inefável,                                                                

Na rima de um tolo internado.

Ao buscar liberdade nas paredes,                                                           

Encontro o retrato falado,  

Meus desejos não acompanham meus deveres,

Sou um rosto inanimado,

O lamento de um condenado.

Queria eu ser versado nas artes da música,

Para com ela esbravejar,  

Inculto maldizente e de gosto indigente,    

Sei que não devo falar.

Sem melodia, sem canção…  

Não há porque expressar,

Estes demônios aprisionados em minha humilde imensidão,  

Hão de continuar a vagar alojados no fosso de meu coração.

Mas sempre haverá rebeldia,  

E dos fundos de minha agonia,

Um diabo alpinista me escala e anuncia,  

Que isso deve acabar.

Outro dia outra bossa,

Viro a página da derrota,

 O inquilino inteligente, ó ser intransigente!  

Rasga meu peito, tortura meu lamento,

E me expulsa da solidão. 

Este olhar enclausurado de uma boca sem língua,

É o olhar de tantos outros que procuram algo que míngua.

E ao me juntar a este grande grupo,

Percebo mais uma vez o porquê de meu reluto,    

Em fazer parte dessa religião.

A esperança nefasta,  

Crença da desgraça,  

Fé de cachaça de um ébrio alterado,

Um utopista, um pobre coitado,

Afastado da razão.

O sonho que saiu de dentro,  

Não é maior que meu medo,  

De encontrar-me novamente de joelhos,  

No templo do descontentamento,

Orando ao desencanto,  

Carregando o semblante da desilusão.

Por isso retorno a caverna…

E no silêncio de suas pedras,

Volto a ser apenas uma boca calada,  

Uma vida sem graça,  

Pertinente somente a cacofonia do nada.

E assim acaba,  

A história não contada,  

A narrativa da caneta falhada,

Não podendo nem tornar-se uma crônica,  

Muito menos uma morte anunciada.

 

- Não deveria haver fim onde não houve início.  

Era o que deveria estar escrito,  

No epitáfio deste indivíduo. 

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